quinta-feira, 19 de setembro de 2013

BLOW UP #1

A PELE QUE HABITO Pedro Almodóvar




*ESTE TEXTO CONTÉM SPOILER!


“Não é Almodóvar”, a primeira frase que vem ao pensamento - de uma pessoa que foi “armada” ao cinema - enquanto assistia o início do filme A Pele Que Habito, de Pedro Almodóvar. Refletir sobre as pequenas marcas autorais do diretor é saber que ele “grita” em discurso, em personagens e em cores – principalmente. Sim, temas como traição, a obsessão do diretor com o sexo e a solidão certamente estão presentes. Mas, definitivamente, é o menos marcado de sua filmografia, e com um argumento, no mínimo, interessante: o médico que muda o sexo de um rapaz por vingança.
O segundo pensamento vem do desenrolar da trama estabelecida pelo diretor. Esse filme abandona o gênero típico do autor, o drama, e embarca numa história tensa, misteriosa que mostra um profissional obsessivo, traumatizado e reservado que vai ao extremo, rompendo os limites éticos da medicina, alcançando consequente e simultaneamente retaliação e experimentação em uma única oportunidade. A narrativa não linear é o que alimenta o suspense que vai fornecendo aos poucos os elementos para desvendar a história, o argumento.
A pele que o personagem habita representa a violação do corpo e a perda da identidade. Isso porque a sociedade contemporânea passa por um momento em que é comum ouvir falar de procedimentos de mudança de sexo. Sendo assim, tendo em vista todos os tratamentos necessários para trabalhar o físico e o mental de uma pessoa que se sujeita a tais procedimentos, como assistir o filme e não pensar em todo o possível desgaste emocional, o transtorno, a loucura que pode vir a perturbar o personagem em questão? Isso tudo é tratado com muita frieza no desdobramento da trama e acredito que é o que mais acaba causando certo desconforto. A pele é o órgão que nos define. No entanto, a pele que aquele personagem habita é a que ele foi sujeitado.


Ainda que eu não goste do fato de que a história teve um desfecho milimetricamente pensado para a conveniência do personagem com um “final feliz”, permeado por uma trilha sonora que anacrônica em relação ao clima estabelecido, o filme causa essa reflexão a respeito da nossa pele: o personagem teve que “vestir” aquela. O próprio corpo ali é a prisão de Vicent, que passa a representar Vera secamente que, inclusive, passando por uma tentativa de suicídio, tenta se refugiar nas poucas alternativas de seu confinamento – como a yoga, por exemplo. E o que se passa pela cabeça de alguém condicionado desta maneira? Logicamente, não com a mesma premissa “Frankensteiniana”, mas quantas pessoas vivem um drama semelhante fora desse filme, onde o corpo é o próprio limite do ser? Por isso vejo como um filme de temática perturbadora, ao menos, e que vale a hora e meia de sua atenção.

Nenhum comentário:

Postar um comentário