“Não é Almodóvar”,
a primeira frase que vem ao pensamento - de uma pessoa que foi “armada” ao
cinema - enquanto assistia o início do filme A Pele Que Habito,
de Pedro Almodóvar. Refletir sobre as pequenas marcas autorais do diretor é
saber que ele “grita” em discurso, em personagens e em cores – principalmente.
Sim, temas como traição, a obsessão do diretor com o sexo e a solidão
certamente estão presentes. Mas, definitivamente, é o menos marcado de sua filmografia,
e com um argumento, no mínimo, interessante: o médico que muda o sexo de um
rapaz por vingança.
O segundo pensamento vem do desenrolar da trama
estabelecida pelo diretor. Esse filme abandona o gênero típico do autor, o
drama, e embarca numa história tensa, misteriosa que mostra um profissional
obsessivo, traumatizado e reservado que vai ao extremo, rompendo os limites
éticos da medicina, alcançando consequente e simultaneamente retaliação e
experimentação em uma única oportunidade. A narrativa não linear é o que alimenta
o suspense que vai fornecendo aos poucos os elementos para desvendar a
história, o argumento.
A pele que o personagem habita representa a violação
do corpo e a perda da identidade. Isso porque a sociedade contemporânea passa por
um momento em que é comum ouvir falar de procedimentos de mudança de sexo.
Sendo assim, tendo em vista todos os tratamentos necessários para trabalhar o
físico e o mental de uma pessoa que se sujeita a tais procedimentos, como
assistir o filme e não pensar em todo o possível desgaste emocional, o
transtorno, a loucura que pode vir a perturbar o personagem em questão? Isso
tudo é tratado com muita frieza no desdobramento da trama e acredito que é o
que mais acaba causando certo desconforto. A pele é o órgão que nos define. No
entanto, a pele que aquele personagem habita é a que ele foi sujeitado.
Ainda que eu não goste do fato de que a história
teve um desfecho milimetricamente pensado para a conveniência do personagem com
um “final feliz”, permeado por uma trilha sonora que anacrônica em relação ao clima
estabelecido, o filme causa essa reflexão a respeito da nossa pele: o
personagem teve que “vestir” aquela. O próprio corpo ali é a prisão de Vicent,
que passa a representar Vera secamente que, inclusive, passando por uma
tentativa de suicídio, tenta se refugiar nas poucas alternativas de seu
confinamento – como a yoga, por
exemplo. E o que se passa pela cabeça de alguém condicionado desta maneira?
Logicamente, não com a mesma premissa “Frankensteiniana”,
mas quantas pessoas vivem um drama semelhante fora desse filme, onde o corpo é
o próprio limite do ser? Por isso vejo como um filme de temática perturbadora,
ao menos, e que vale a hora e meia de sua atenção.

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