Resolvi falar de um filme que é simplesmente incrível que está na minha lista dos mais assistidos na vida, ainda que, num primeiro momento, passe por algo fútil - e não é. O título é Mean Girls, escrito por Tina Fey, dirigido por Mark Waters.
“Filme
adolescente”, “filme de colégio”. Dentro do gênero comédia, se este é o
assunto, nostálgicos, nos detemos na década de oitenta com os filmes de um
momento do cinema em que o grupo Brat
Pack1 estava em evidência, em filmes como O Clube dos Cinco e Curtindo
a Vida Adoidado, de John Hudges, A
garota de Rosa Choque, de Howard Deutch, Namorada de Aluguel, de Steve Rash, "Te Pego Lá Fora", de Phil Joanou... Uma lista considerável de
filmes que se passam no colégio e abusam da caricatura dos personagens do
ambiente High School, geralmente
envolvendo algum tipo de Bulling,
algum romance, uma encrenca, um personagem central com quem nos identificamos
logo de início. Este último, ou por sua popularidade - resultado da
personalidade ousada e o carisma de Ferris Bueller, por exemplo - ou pela falta
dela - como o caso de Ronald Miller e sua "namorada paga".
Tudo
o que é apresentado nestas produções com a atmosfera da ingenuidade que é
visível muito nos filmes da época e dos reflexos de uma geração. E ainda que os
filmes dos anos oitenta sejam sempre "os melhores" nos comentários
saudosistas dos que acreditam numa época de ouro desse estilo de cinema, os
filmes de colégio perduram e muito do que os clássicos trouxeram naqueles anos
está presente nos trabalhos mais recentes. Os mesmos clichês - até mesmo porque
as épocas mudam, mas os dramas jovens pra inspirar os roteiros ainda persistem
na semelhança. Isso, como em vários outros gêneros e até porque existe a
indústria do cinema, resulta em certa banalização e muito do que é feito acaba
em um conjunto de cenas com piadas óbvias.
O filme Mean Girls (2004) conta a trajetória da personagem Cady
Heron (Lindsay Lohan) dentro da North
Shore High School e é um estudo comportamental muito cativante que difere
da maneira como estas histórias de colégio vinham sendo contadas. Quando
assisti - logo que foi lançado – vários aspectos de potencial crítico saltaram
aos olhos: a fraqueza da imagem dos adultos, a educação deficiente dos pais, os
preconceitos, o personagem social que todos interpretam dentro do ambiente
escolar, enfim. Vale pensar este filme tanto em conteúdo como também em forma.
A
ambientação é descaradamente jovem e a protagonista é Star System. A personagem principal de Mean Girls é Cady (Lindsay
Lohan), que sempre viajou muito, viveu na África e, por isso, foi educada em
casa até se mudar para Chicago e ter de finalmente começar a frequentar o
ambiente escolar. Nisso, conhece seus amigos Janis (Lizzy Caplan) e Damian
(Daniel Fanzese), que propõem que ela se infiltre no trio de garotas
patricinhas que domina a escola, as "Poderosas" (The Plastics, no
original) que são Gretchen (Lacey Chabert), Karen (Amanda Seyfried) e, a
principal vilã, Regina (Rachel McAdams). A história do filme é contada por Cady
e se passa num ambiente que é bem recorrente dentro do cinema de comédia norte americano:
a escola secundária.
Em
geral, filmes que se passam neste mesmo cenário, não fogem ao clichê da
caricatura dos personagens típicos presentes - a boazinha, a patricinha popular
e má, o excluído, os jogadores de futebol, o nerd. Todos tipos revisitados, num
roteiro que foca um retrato das adolescentes americanas. Cady, a novata com uma
personalidade ingênua, Janis e Damian (que ridicularizam as atitudes absurdas
dos tipos da escola secundária) que são os amigos da personagem principal -
ainda que acabem por 'usar' a recém-chegada numa vingança pessoal contra o trio
das Podersas. Regina é a popular, maligna e temida patricinha que gosta de usar
o seu poder de seduzir a todos. Gretchen e Karen são suas amigas e seguidoras,
altamente passivas. A função de cada uma das personagens na história é evidente
desde a apresentação trazendo esse reflexo da futilidade presente durante os
anos de colégio que, talvez, venha a se estender por uma vida.
Pensar
nisso e tentar entender os fenômenos presentes nas discussões saídas deste
filme, sobretudo os valores que se perdem aliados ao fato do fenômeno jovem do
pertencimento, do grupo, da necessidade de fazer parte de algo como uma
característica cada vez mais presente na sociedade, essa coisa da mídia que
descreve rumos. Não tenho certeza se pode ser considerada uma das deficiências
da personagem a falta dessa convivência em ambiente escolar, já que foi educada
sempre em casa, e isso pode ter contribuído para a necessidade de ser aceita
por um grupo. Mas acredito que sim. Interessante refletir também sobre a
relação disso com o fato de Tina Fey, a roteirista, neste caso, que deixa
transparecer esses estereótipos e é justamente conhecida por esse humor crítico,
ácido a la Saturday Night Live (programa
de TV em que também já foi roteirista) e que sempre bate na tecla do feminismo,
enfim.
A
história do filme percorre um ano de Cady no colegial, desde sua entrada na
escola até o momento em que a paz se estabelece entre as garotas. Dentro disso, várias características precisam ser
consideradas na construção do discurso dos filme teen. Os personagens são
caricaturas e é intrigante pensar em como os adultos são representados no filme
por meio de vários clichês destas comédias adolescentes. A mãe de Regina, por
exemplo, não passa de uma dondoca, uma figura familiar de uma estrutura falida
de educação, que não tem qualquer poder sobre as atitudes da filha,
representando um papel muito comum dos filmes deste tipo, em que é mostrada a
impotência dos pais com relação aos filhos e o reflexo disso no caráter da nova
geração; O diretor da escola parece não ter qualquer controle do que está
fazendo, nem mesmo sabe como lidar com as alunas quando a situação fica mais tensa
na segunda metade do filme; Os professores que são quase sempre ridicularizados
nestes filmes, por um lado, se tratando do descontrole na vida pessoal e/ou
ainda pela falta de ética – neste caso, como na professora interpretada por
Tina que é cheia de problemas pessoais, bem como o professor de Educação
Física, que se aproveita de suas alunas.
O
romance na comédia adolescente é basicamente algo necessário. Pelo histórico
das produções, quando estamos assistindo um filme de temática adolescente
estamos (mesmo que subconscientemente) aguardando um romance se desenrolar.
"Quando aparece a menina mais cobiçada da escola, inalcançável, que namora um
atleta?"
E, da mesma maneira, "onde se encontra o garoto impossível, perfeito, que
namora a líder de torcida popular e que vai acabar com a vida social da pessoa
que ameaça atravessar o seu caminho?"
No caso deste filme, o pretendente é o
namorado da vilã, Regina. Ele é perfeito: bonito, inteligente, tem carisma. E
aí a personagem principal também precisa se superar pra tentar conquistar o
rapaz - e isso sempre é algo que rende alguma humilhação, retaliação e,
geralmente, está relacionado ao ponto de virada do filme, tudo muito característico.
Além
de tudo isso, existem certas situações que os personagens precisam experimentar
nos filmes teen. Assuntos que, mais do que recorrentes, são decisivos na vida
dos personagens. Em geral, festas. Festas que definem casais, que serve para a autoafirmação,
que são desculpas para a promiscuidade. Mas o principal evento sempre é o
baile. O baile que reforça vários aspectos, grupos, a expectativa da
coroação, o rei e a rainha. Ou seja,
ainda que os temas sejam algo já explorado e a narrativa clássica faça com que
ela seja semelhante a vários outros filmes, a maneira como ele funciona mostra
que a Hollywood pode muito bem persistir numa mesma execução sem persistir no
erro. A criatividade permite que a fórmula seja repetida, mas não maçante a
ponto minar o argumento proposto. Muitos já viram um filme que se passa no
colégio e, de alguma maneira, eles acabam por colocar a patricinha ou o
zagueiro (ou simplesmente os ícones populares, enfim) em seu lugar, devolvendo
a humilhação. Mas com certeza é em utilizar criativamente dos recursos
cinematográficos - ou não - que temos um filme diferente dos demais. Ou seja, é
um flashback ou ainda um diálogo
irônico (ou os dois juntos) que pode mudar o tom do filme e dar um diferencial
que enriquece a narrativa, mudar uma intenção.
Por exemplo, uma cena em que Cady tem uma conversa trivial com Regina e
percebe que ela critica a saia de uma colega talvez seria só isso e passasse em
branco caso não fosse inserido visualmente o vislumbre de Cady, um flashback, que atribui importância para aquela
cena. Julgamos as personagens sob a ótica dela, Cady, e em vários momentos isso
é ressaltado, por exemplo, por meio de suas lembranças, reafirmando os estereótipos e o caráter dos personagens - como na
cena do shopping, na briga coletiva entre as meninas da escola em que é feita a
comparação com as savanas em que Cady estava sempre presente desde a infância. E aí vem essa relação com a novidade, já que
dentro de um subgênero se estabelece um conjunto de códigos que precisam ser
utilizados de maneira original para fazer valer dentro de um universo que se
busca o novo, como é o caso de qualquer arte. Por mais redondo, transparente,
cronológico – isso correndo o risco de ser sempre enfadonho e igual aos outros
– existem subterfúgios comuns que podem tornar a obra original. Neste caso, a
ordem dos fatores alterou o produto. O filme é genial e simples.

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